O sono do bebê e o desafio de alinhar os estudos à intuição quando estamos do olho do furação

Eu sempre sonhei em ser mãe, por isso, sempre levantava as orelhas quando ouvia algo sobre a maternagem. E a primeira informação que chegou a mim sobre o sono do bebê era a importância de deixa-lo chorar até ele pegar no sono sozinho. Sei que minha mãe agiu dessa forma comigo, mas nunca demonstrou  muito orgulho disso, pois quando narrava a história o seu tom era muito mais de desespero, por isso não a responsabilizo por instaurar essa crença. Mas esmiuçando a minha forma de entretenimento de sábado, lembro de passar uma infância/adolescência vidrada em episódios de super Nanny. Uma mulher estranha que entrava no lar para julgar pais e mães, dava uns pitacos e disponibilizava as mesmas informações para todas as famílias com pessoas e formatos tão diversos. Como a TV a pintava como autoridade, eu e várias outros pais e mães, compramos os seus ensinamentos.

 Aos 24-25 anos comecei a buscar muito sobre infância, maternidade, parto e etc., como forma de preparo para lidar com o que eu tinha certeza que viria até os 30 anos, e me identifiquei com a teoria do apego, disciplina positiva, brincar livre, maternidade feminista e comecei a questionar algumas crenças e a traçar algumas possibilidades de rota. Eu não preciso de muito para ser convencida e rapidamente entendi que deixar chorar para dormir não era uma possibilidade. O problema é que eu carreguei isso como uma valor inegociável. Logo que nasceu Oryah chorava e chorava muito quando não estava no meu colo. A maternidade pública é caótica, as luzes estão sempre acesas  e eu fazia de tudo para acalmá-lo.

Quando chegamos em casa ele se acalmou, mas não dormia; e uma outra coisa que aprendi e carreguei, segurando com força, foi a informação de que o sono era imprescindível, que o bebê precisa da rotina, das sonecas e que ele não podia dormir só no peito, ou ninado, balançado ou alguma associação. Mas também li que é normal o bebê acordar à noite algumas vezes no primeiro ano e que treinamento do sono não eram críveis ou afetuosos. O problema é que choviam anúncios no meu instagram que diziam que era possível o bebê dormir à noite toda e de forma respeitosa e eu, é claro, ficava muito seduzida e procurava saber mais ( e tome-lhe informação!).

E mesmo identificando que meu filho estava bem, feliz, ganhando peso, mamando e etc, alinhar essa quantidade de informações à crença de que não podia deixar chorar estava sendo insustentável. Oryah detestava a ideia de dormir e a qualquer sinal de que isso iria rolar, já soltava o gogó. Parou de aceitar a cadeira, o carrinho, a rede e o colo. Senti que ou eu era uma mãe pouco dedicada ou o meu filho era a pior das crianças e, por vezes, achei que fossem as duas coisas. Todas as vezes que ia tentar fazê-lo dormir fora do peito me culpava, pois achava que estava gerando estresse e trauma no meu bebê. Então, rendi-me a tornar o peito o aliado do sono do meu filho. Era um momento bom , de sossego, fácil

Mas depois de uns meses nesse ritmo, comecei a sair de casa sem o bebê. Saídas curtas à noite, mas que geraram um estresse dantesco ao meu filho e aos meus pais, que estavam tentando quebrar meu galho. Oryah ficou 100% dependente de mim para dormir. Por conta da cama compartilhada e por dormir sempre no peito, sentia muito quando eu não estava por perto. Eu sabia que isso não era legal, mas estava cansada de encher a minha mente com informações que se contradiziam e me deixavam confusa. Sofri um OVERLOAD INFORMATION sobre sono, então o que fiz foi sacrificar essas saidinhas e abraçar o caos, porque uma certeza eu tinha: essa fase iria passar, independente das minhas escolhas.

Enquanto estava na cama compartilhada, botando pra dormir no peito e essas mamadas só aconteciam duas ou três vezes por noite, estava tudo bem. O problema é que aos 9 meses Oryah começou a mamar de hora em hora e quase sempre acordava quando soltava o peito da boquinha. Agora imagina a minha situação: mão solo tendo que cuidar de quase tudo sozinha, comida, roupa, banho, brincar, soneca, estudar, tentar arrumar grana, dormindo apenas 3 horas por noite. Eu estava com a sensação de que morreria, cairia dura a qualquer hora. Sem falar que fiquei com a imunidade baixa, gripei, passei pra criança…

Não tinha mais como, decidi colocar a máscara de oxigênio para poder cuidar do meu filho. Eu tinha que escolher um caminho sustentável e possível, mesmo que envolvesse choro. Então resolvi olhar para o como eu estava conduzindo tudo e fazer mudanças importantes que depois eu posso tentar deixar disponíveis aqui.

Eu não li nada quando decidi que precisava mudar. Parei uns dias sem fazer nenhuma mudança e fiquei só ali lembrando de tudo o que eu já tinha visto, lido e tentando observar, a partir da personalidade e das características do meu filho, o que eu podia fazer. Vivia quase que em estado meditativo, deixando as informações chegarem e minha intuição me guiar.

E fui tentando aos poucos. Ele sempre dormia mamando, então tirei o mamar da entrada do sono noturno. Dava o peito antes de apagar as luzes e tirava antes de ele começar a cochilar. Foi fácil? Ele berrou por uma hora e meia. Sozinho? Jamais! Estava ali do lado sempre chorando junto.  Mas ali eu já havia entendido que o choro representava a frustração da mudança e que as frustrações fazem parte da vida e que a mim não cabia resgatá-lo, mas acolher.  

Demorou 3 dias para ele entender que aquela era a nova dinâmica daquele horário. Ajustei muitas coisas ao longo do dia: cortei a TV(já era contra antes, mas acabei me rendendo e sentia que a agitação e a resistência em dormir poderia vir dali), comecei a ficar mais presente quando estava com ele, pois com a carga mental da mãe solo, acabava estando junto mas não dando atenção. Depois tirei a mamada de uma soneca e assim foi indo, indo e ainda não IU, viu?! Hehe Ele ainda resiste muito em algumas sonecas e ainda mama à noite, pois só terei coragem de fazer isso quando a alimentação dele estiver bem estabelecida. Mas já dorme quatro horas seguidas, o que é um grande avanço. Também já consegue dormir sem mim e vamos que vamos. Afinal, esse é apenas o 12º dia.

Bom, mas a reflexão final que queria tirar desse processo é a seguinte:

A gente tem que se informar, estudar, ter acesso às linhas e pensamentos, mas a gente não pode esquecer que a mão que segura o livro, os olhos e ouvidos que presenciam a realidade e os pés que andam o chão da vida são nossos. Temos que dispor tudo isso em prateleiras organizadas por assuntos em nossa mente e olhar de forma distante para o que nos serve de acordo com a nossa realidade, nossos filhos, nossa família. E a minha dica é essa: quando estiver apertando aí, para, respira, pense em seus valores inegociáveis, repare em quem é o seu filho e então escolha um caminho. Se não der bom, devolve o livro pra prateleira e pega outro, mas nunca tome o os livros e teorias como a verdade absoluta e inegociável, mas como amuleto, ferramenta.

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